Quinta-feira, Outubro 04, 2007

Oração A Mim Mesmo

Que eu me permita
olhar e escutar e sonhar mais.
Falar menos.
Chorar menos.
Ver nos olhos de quem me vê
a admiração que eles me têm
e não a inveja que, prepotentemente, penso que têm.

Escutar com meus ouvidos atentos
e minha boca estática,
as palavras que se fazem gestos
e os gestos que se fazem palavras.

Permitir sempre
escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.

Saber realizar
os sonhos que nascem em mim
e por mim
e comigo morrem por eu não os saber sonhos.

Então, que eu possa viver
os sonhos possíveis
e os impossíveis;
aqueles que morrem
e ressuscitam
a cada novo fruto,
a cada nova flor,
a cada novo calor,
a cada nova geada,
a cada novo dia.

Que eu possa sonhar o ar,
sonhar o mar,
sonhar o amar,
sonhar o amalgamar.

Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos,
do impossível,
da imensidão de toda profundeza.

Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque,
pelo sentir,
pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras,
pela oração mental
(aquela que a alma cria e
que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).

Que eu saiba dimensionar o calor,
experimentar a forma,
vislumbrar as curvas,
desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância
que se mostra
nas pequenas manifestações
da vida.

Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza,
criando-me
e recriando-me a cada instante.

Que eu possa chorar menos de tristeza
e mais de contentamentos.

Que meu choro não seja em vão,
que em vão não sejam
minhas dúvidas.

Que eu saiba perder meus caminhos
mas saiba recuperar meus destinos
com dignidade.

Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
- Que eu não tenha medo de meus medos!

Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.

Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,
sábio dentro de meus limites
pequenos e inexatos,
humilde diante de minhas grandezas
tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas
e o quanto é valiosa
minha pequenez).

Que eu me permita ser mãe,
ser pai,
e, se for preciso,
ser órfão.

Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,
traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;
respeitar incondicionalmente
o ser;
o ser por si só,
por mais nada que possa ter além de sua essência,
auxiliar a solidão de quem chegou,
render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.

Que eu possa amar
e ser amado.

Que eu possa amar mesmo sem ser amado,
fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo
gentilezas.

Que eu jamais fique só,
mesmo quando
eu me queira só.

Amém.

Oração a Mim Mesmo - Oswaldo Antônio Begiato

Terça-feira, Setembro 11, 2007

Vila Paciência

Minha vida está tomando novos rumos agora que esntrei para o SOLTEC. Um desses rumos está me levando até Vila Paciência.

No período de ditadura militar, o Governo Federal criou a Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (CHISAM), que para Vala (1985) foi o maior responsável pelas grandes remoções de moradores até 1973. Uma das razões declaradas de sua existência devia-se à necessidade de alterar o panorama urbano deformado. (VALA, 1985)
A maioria dos moradores das comunidades removidas foi morar na zona oeste da cidade, ainda sem uma infra-estrutura de transporte e saneamento capaz de receber todas essas pessoas. Segundo Monteiro (2003), dez anos após a criação da CHISAM, 130 mil pessoas foram removidas para conjuntos habitacionais no subúrbio.
Os resultados desse processo de remoção podem ser visualizados na comunidade de Vila Paciência, localizada em Santa Cruz, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro e que contava, segundo dados de pesquisa realizada em 2002, com cerca de 6000 habitantes (CEDAPS, 2002).
Inicialmente conhecida como Favela do Aço, há alguns anos vem sendo chamada pelos moradores de “Vila Paciência” com o objetivo de superar o estigma do nome.
As informações sobre suas condições gerais e socioeconômicas de Vila Paciência encontram-se dispersas e de difícil identificação pelas fontes oficiais. Concentra um dos piores índices de condições de vida da região e do município, possuindo pouquíssimos equipamentos sociais, áreas com sérios problemas de saneamento e limpeza urbana, moradias com grande precariedade, algumas em situação de risco, uma organização comunitária ainda fraca, influência do tráfico de drogas, rival das comunidades vizinhas (com maior grau de articulação interna), dificultando a circulação e o acesso a direitos sociais básicos e equipamentos públicos do entorno.
Internamente identificam-se duas áreas distintas: a Parte Baixa, onde ficam os “vagões”, como é chamada pelos moradores e a Parte Alta, chamada pelos moradores de “dialta”, onde ficam os blocos. Por ter sido um conjunto planejado (inicialmente para ser provisório) pelo governo do Estado, nos anos 60, a comunidade é considerada um conjunto habitacional por parte dos órgãos públicos, dificultando o acesso a programas de melhoria em favela. (CEDAPS, 2002)
Os vagões são módulos contíguos de 15 metros quadrados cada, sem divisões internas, que ficam um de frente para o outro com uma distância de aproximadamente 2,5 metros entre eles, formando uma série de vielas onde o esgoto se rompeu. Quando chove, a água se mistura nas torneiras com o esgoto. As tampas dos bueiros não existem mais. A cada instante uma criança cai dentro destes esgotos tendo que ser rapidamente resgatada, limpa e desinfetada. Grande parte das crianças já foi mordida por ratos que passeiam a luz do dia.
Segundo a pesquisa amostral realizada pelo CEDAPS, da população de 15 a 59 anos apenas 32,7% trabalham, formal ou informalmente. Desses entrevistados 70,1% tinha de 20 a 49 anos.
Dos que trabalham, apenas 48,2% possuem carteira assinada. (CEDAPS, 2002)
(Flávio Chedid Henriques, Mestrando PEP/COPPE)


É estranho perceber que o ensino superior, mesmo em uma instituição pública, como é o meu caso, não faz o menor esforço para abrir os olhos dos alunos para essas realidades. Parece que, depois de formados, viveremos todos numa sociedade igualitária e perfeita onde não existem problemas sociais e nossa única função será a geração de capital para alimentar a máquina que move o mercado mundial.
Não é assim que imagino meu futuro e, para a minha felicidade, encontrei pessoas que estão fazendo algo diferente do presente também. É a essas pessoas que decido por agora me juntar, na esperaça de conseguir mudar de forma positiva o mundo em que vivemos.


Minhas primeiras impressões sobre a comunidade de Vila Paciência foram bastante positivas. Tenho certeza que minhas opiniões não vão ser imparciais, pois trabalhar junto ao SOLTEC está sendo, para mim, como descobrir um mundo novo; um mundo onde não me sinto estranho ou “meio-maluco”, mas um mundo onde me sinto em casa.
Chega de divagações; voltemos ao assunto.
Numa observação superficial, Vila Paciência me pareceu um lugar que carece do mais básico senso de dignidade humana. As pessoas que habitam os Vagões moram em abrigos que nem mesmo merecem ser chamados de casas. A rede de esgoto deságua ainda dentro da região onde as pessoas habitam e corre a céu aberto a partir dali. Em dias de chuva, ele invade as casas. Não há um serviço médico que atenda a população de maneira aceitável, o transporte urbano serve muito mal ao local e o tráfico de drogas e a violência são realidades diárias.
Além disso, a população num geral, esquecida pelo governo por tantas décadas, se “acomodou” da melhor maneira que pode em sua precária situação e se mantém descrente em qualquer mudança que possa haver no local.
Um olhar mais profundo me fez ver que existem aqueles que sabem que onde antes tudo era barro, hoje existe asfalto. Onde antes apenas a lamparina iluminava, hoje existe rede elétrica. Onde hoje existe um Vagão, amanhã poderá existir uma Casa 1.0. São essas pessoas ainda dotadas de esperança e força, que considero o coração de Vila Paciência. Um coração que se esforça para oxigenar o cérebro e curar as feridas do corpo. E eu tenho a esperança de que, com um leve empurrão e um pouquinho de direcionamento, esse coração pode crescer e surpreender muitos daqueles que já não acreditam mais na recuperação do paciente.
As minhas primeiras impressões sobre Vila Paciência me mostram muito trabalho a se fazer, muito esforço e muita briga e dor de cabeça por vir. As coisas não serão fáceis, mas não me parecem impossíveis. A mobilização que hoje existe apoiando o Projeto do SOLTEC me faz crer que, em breve, teremos braços imPacientes erguendo a primeira casa, derrubando de vez a estigma da Favela do Aço.
E que a construção da fundação da primeira casa e o ingresso do primeiro jovem daquela comunidade na UFRJ, ambos conseguidos com o esforço dos próprios moradores, marquem uma era de total renovação em todos os sentidos para Vila Paciência.
(Marcos Valério Clemente Bahia - Voluntário do SOLTEC)

Pensamento do Dia

Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; política sem idealismo; religião sem sacrifício e ciência sem humanismo.

Mahatma Gandhi

Domingo, Setembro 09, 2007

Você Pensa Que Pensar É Fácil?

Várias coisas que aconteceram nessas duas últimas semanas me fizeram pensar nas sutilezas da arte de pensar e achei que seria interessante falar um pouco das idéias que encontrei e das conclusões a que cheguei.

Faz parte de ser humano o dom de pensar. Todos nós estamos pensando a todo o momento. Pensamos no que temos para fazer, no que já fizemos, no que vemos, nas memórias que a visão nos desperta... Mas existe uma forma de pensar que nem todo ser humano exercita: o pensar criticamente. Apesar disso, apenas o pensamento crítico pode libertar o ser humano da prisão da mesmice.

O pensamento crítico surge quando questionamos o primeiro pensamento espontâneo. É quando o pensamento se dobra sobre si mesmo, checando sua própria validade, que a verdade começa a surgir. Quando questionamos, deixamos de ser imitadores de idéias e repetidores de citações para nos tornarmos donos de nossos destinos e formadores de opinião. É a liberdade plena que só pode ser alcançada quando surge a vontade genuína de se fazer as perguntas certas.

O que me espanta é como esse pensamento crítico é a exceção e não a regra. Para isso só consigo encontrar duas explicações: comodismo ou medo.

O comodismo é fácil de entender. É tão mais fácil ser apenas mais um copiando o que todo mundo faz e seguir a maré sem tentar outras rotas que as pessoas simplesmente se recostam e deixam a corrente levá-las.

O medo, que às vezes se confunde com o comodismo, é um pouco mais difícil de se compreender. É o medo de questionar o comportamento da turma e, por causa disso, ser banido. É o medo de enlouquecer quando o questionamento mostra que coisas que pareciam tão certas, tão sólidas e que serviam de base para a existência se desfazem mais rápido que castelos de areia frente a certas perguntas. Exagero? Acho que não. Se duvidar (e tiver coragem) pense um pouco acerca das perguntas abaixo:


  • Se existe um salário mínimo para garantir que a população tenha um padrão de vida minimamente (em teoria) digno, porque não existe um salário máximo que impeça que a renda se distribua de maneira tão desigual?
  • Se, quando atraso o pagamento de uma conta, o banco me cobra juros que aumentam o valor a ser pago, porque, ao pagar uma conta antes de seu vencimento, não posso cobrar juros ao banco, reduzindo o valor a ser pago?
  • Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?


Eu, questionar essas verdades universais que o mundo reproduz a tantos e tantos anos? Tá louco! Melhor ficar quietinho na minha concha assistindo TV.
E o medo nos impede de seguir em frente. Triste, mas acabamos prisioneiros numa cela sem paredes e a céu aberto, sem provar verdadeiramente da liberdade que nos cerca.

Por isso, recomendo a você que questione e coloque os miolos para malhar. Se enlouquecermos, que seja na liberdade plena, onde nenhuma idéia vive se não tiver uma boa justificativa para isso.

Sexta-feira, Agosto 24, 2007

A Vila



(Cena em que Ivy acorda no meio da noite e encontra com Lucius na varanda de sua casa após o ataque “Daqueles Dos Quais Não Falamos”)

Ivy Walker - Porque você está nessa varanda?
Lucius Hunt - Porque não estamos seguros.
Ivy Walker - Há outras varandas.
(silêncio)
Ivy Walker - Você me acha muito masculina? Gosto de fazer coisas de garotos, como o jogo dos meninos no tronco. Eles ficam de costas para a floresta, para ver quanto tempo aguentam até ficarem com medo. É tão empolgante...
Ivy Walker - Eu sei que o recorde é seu. Dizem que ele nunca será quebrado.
Lucius Hunt - É apenas um jogo de crianças.
Ivy Walker - Como você pode ser tão corajoso quando os outros morrem de medo?
Lucius Hunt - Não me preocupo com o que acontecerá, apenas com o que precisa ser feito.
Lucius Hunt - Como sabia que eu estava aqui?
Ivy Walker - Eu te vi pela janela.
(silêncio)
Ivy Walker - Não. Eu não direi qual é a sua cor. Pare de perguntar.
Ivy Walker - Quando formos casados, você dançará comigo? Acho dançar muito agradável.
(silêncio)
Ivy Walker - Por que não pode dizer o que tem na cabeça?
Lucius Hunt - Por que não pode parar de dizer o que tem na sua?
(silêncio)
Lucius Hunt - Por que você tem que tomar a iniciativa quando eu quero tomar a iniciativa?
Lucius Hunt - Se eu quiser dançar, eu lhe pedirei para dançar. Se eu quiser falar, abrirei a boca e falarei. Todos me aborrecem para que eu fale mais. Por quê? Por que devo dizer que só penso em você desde a hora que acordo? Qual o benefício em dizer que às vezes não consigo pensar com clareza, nem trabalhar direito? Qual é o benefício em lhe dizer que a única vez que sinto medo como os outros é quando acho que você está em perigo?
Lucius Hunt - É por isso que estou nesta varanda, Ivy Walker. Temo pela sua segurança mais do que pela dos outros.
(silêncio)
Lucius Hunt - E, sim... Eu dançarei com você na noite do nosso casamento.

Domingo, Agosto 19, 2007

Algumas Coisas Interessantes Que Vi Por Aí...

Política mundial num comercial de produto. Genial!




Se você vai casar, faça da maneira certa!



O Filme do ano!





Segunda-feira, Agosto 13, 2007

O Que É Que Tem o Cú Com As Calças?

(Baseado em fatos reais)

- Você vai entender as calças agora?
- Você quis dizer estender, né?
-Humm... É... Mas as calças também precisam de compreensão.
- Claro...
- É sim. Imagina como seria a sua vida se tivesse sempre alguém querendo sentar em cima de você.
- Querendo não. Sentando mesmo, né?
- Verdade. Será que é por isso que elas vivem com cara de bunda?

(longa pausa reflexiva)

- Triste mesmo deve ser a calça do super-homem. Quando você acha que vai ficar por cima, vem a cueca e corta o seu barato.
- Aí já não sei. Se você pensar que calça é feminino e ele além de homem é super, pode até ser que ela curta. Triste deve ser a calça da mulher-gato.
- Mas a mulher gato não usa calças. O uniforme dela é uma coisa só...
- Antes tinha, só que as calças ficaram tão tristes que cometeram suicídio.

Post Incidental:
Faculdade de Engenharia pode te ajudar a ser um romancista e Métodos Experimentais pode te dar mais segurança ao cozinhar. Isso é que é interdisciplinaridade!