Minha vida está tomando novos rumos agora que esntrei para o
SOLTEC. Um desses rumos está me levando até Vila Paciência.
No período de ditadura militar, o Governo Federal criou a Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (CHISAM), que para Vala (1985) foi o maior responsável pelas grandes remoções de moradores até 1973. Uma das razões declaradas de sua existência devia-se à necessidade de alterar o panorama urbano deformado. (VALA, 1985)
A maioria dos moradores das comunidades removidas foi morar na zona oeste da cidade, ainda sem uma infra-estrutura de transporte e saneamento capaz de receber todas essas pessoas. Segundo Monteiro (2003), dez anos após a criação da CHISAM, 130 mil pessoas foram removidas para conjuntos habitacionais no subúrbio.
Os resultados desse processo de remoção podem ser visualizados na comunidade de Vila Paciência, localizada em Santa Cruz, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro e que contava, segundo dados de pesquisa realizada em 2002, com cerca de 6000 habitantes (CEDAPS, 2002).
Inicialmente conhecida como Favela do Aço, há alguns anos vem sendo chamada pelos moradores de “Vila Paciência” com o objetivo de superar o estigma do nome.
As informações sobre suas condições gerais e socioeconômicas de Vila Paciência encontram-se dispersas e de difícil identificação pelas fontes oficiais. Concentra um dos piores índices de condições de vida da região e do município, possuindo pouquíssimos equipamentos sociais, áreas com sérios problemas de saneamento e limpeza urbana, moradias com grande precariedade, algumas em situação de risco, uma organização comunitária ainda fraca, influência do tráfico de drogas, rival das comunidades vizinhas (com maior grau de articulação interna), dificultando a circulação e o acesso a direitos sociais básicos e equipamentos públicos do entorno.
Internamente identificam-se duas áreas distintas: a Parte Baixa, onde ficam os “vagões”, como é chamada pelos moradores e a Parte Alta, chamada pelos moradores de “dialta”, onde ficam os blocos. Por ter sido um conjunto planejado (inicialmente para ser provisório) pelo governo do Estado, nos anos 60, a comunidade é considerada um conjunto habitacional por parte dos órgãos públicos, dificultando o acesso a programas de melhoria em favela. (CEDAPS, 2002)
Os vagões são módulos contíguos de 15 metros quadrados cada, sem divisões internas, que ficam um de frente para o outro com uma distância de aproximadamente 2,5 metros entre eles, formando uma série de vielas onde o esgoto se rompeu. Quando chove, a água se mistura nas torneiras com o esgoto. As tampas dos bueiros não existem mais. A cada instante uma criança cai dentro destes esgotos tendo que ser rapidamente resgatada, limpa e desinfetada. Grande parte das crianças já foi mordida por ratos que passeiam a luz do dia.
Segundo a pesquisa amostral realizada pelo CEDAPS, da população de 15 a 59 anos apenas 32,7% trabalham, formal ou informalmente. Desses entrevistados 70,1% tinha de 20 a 49 anos.
Dos que trabalham, apenas 48,2% possuem carteira assinada. (CEDAPS, 2002)
(Flávio Chedid Henriques, Mestrando PEP/COPPE)
É estranho perceber que o ensino superior, mesmo em uma instituição pública, como é o meu caso, não faz o menor esforço para abrir os olhos dos alunos para essas realidades. Parece que, depois de formados, viveremos todos numa sociedade igualitária e perfeita onde não existem problemas sociais e nossa única função será a geração de capital para alimentar a máquina que move o mercado mundial.
Não é assim que imagino meu futuro e, para a minha felicidade, encontrei pessoas que estão fazendo algo diferente do presente também. É a essas pessoas que decido por agora me juntar, na esperaça de conseguir mudar de forma positiva o mundo em que vivemos.
Minhas primeiras impressões sobre a comunidade de Vila Paciência foram bastante positivas. Tenho certeza que minhas opiniões não vão ser imparciais, pois trabalhar junto ao SOLTEC está sendo, para mim, como descobrir um mundo novo; um mundo onde não me sinto estranho ou “meio-maluco”, mas um mundo onde me sinto em casa.
Chega de divagações; voltemos ao assunto.
Numa observação superficial, Vila Paciência me pareceu um lugar que carece do mais básico senso de dignidade humana. As pessoas que habitam os Vagões moram em abrigos que nem mesmo merecem ser chamados de casas. A rede de esgoto deságua ainda dentro da região onde as pessoas habitam e corre a céu aberto a partir dali. Em dias de chuva, ele invade as casas. Não há um serviço médico que atenda a população de maneira aceitável, o transporte urbano serve muito mal ao local e o tráfico de drogas e a violência são realidades diárias.
Além disso, a população num geral, esquecida pelo governo por tantas décadas, se “acomodou” da melhor maneira que pode em sua precária situação e se mantém descrente em qualquer mudança que possa haver no local.
Um olhar mais profundo me fez ver que existem aqueles que sabem que onde antes tudo era barro, hoje existe asfalto. Onde antes apenas a lamparina iluminava, hoje existe rede elétrica. Onde hoje existe um Vagão, amanhã poderá existir uma Casa 1.0. São essas pessoas ainda dotadas de esperança e força, que considero o coração de Vila Paciência. Um coração que se esforça para oxigenar o cérebro e curar as feridas do corpo. E eu tenho a esperança de que, com um leve empurrão e um pouquinho de direcionamento, esse coração pode crescer e surpreender muitos daqueles que já não acreditam mais na recuperação do paciente.
As minhas primeiras impressões sobre Vila Paciência me mostram muito trabalho a se fazer, muito esforço e muita briga e dor de cabeça por vir. As coisas não serão fáceis, mas não me parecem impossíveis. A mobilização que hoje existe apoiando o Projeto do SOLTEC me faz crer que, em breve, teremos braços imPacientes erguendo a primeira casa, derrubando de vez a estigma da Favela do Aço.
E que a construção da fundação da primeira casa e o ingresso do primeiro jovem daquela comunidade na UFRJ, ambos conseguidos com o esforço dos próprios moradores, marquem uma era de total renovação em todos os sentidos para Vila Paciência.
(Marcos Valério Clemente Bahia - Voluntário do SOLTEC)